Quinta-feira, Março 16, 2006

Sobre os preservativos nas escolas

Há algumas semanas regressou ao debate a temática da implementação da Educação sexual nas escolas. Esta proposta, tão antiga quanto polémica, tem sido alvo de vários estudos e projectos, assim como pretexto para várias manifestações quer de estudantes quer de outras associações, utilizadas para apoiar ou criticar. Se por vezes parece que há um consenso sobre a necessidade da existência de educação sexual nas escolas e que o problema está ao nível do modelo prático de implementação, a discussão que grassou na comunicação social, na blogoesfera e, acredito, nas esferas privadas, aquando da capa do Correio da Manhã de 8 de Fevereiro -“Preservativos nas Escolas”-, mostra-nos que talvez a coisa seja mais complexa.

Há vários factores que se têm de ter em consideração quando se fala de sexo na adolescência, até pelas externalidades existentes, uma delas de nome bem conhecido: SIDA. A SIDA é a pandemia do nosso tempo. Discreta, alastra sem alarido pelas sociedades ocidentais, tendo nas relações sexuais desprotegidas um dos principais meios de contágio.

Por mais que se deseje que o sexo seja feito a partir de um determinado ponto do tempo, ele acontece onde se escolhe que ele aconteça (isto é um grande argumento para aquela história da idade. Se acontece sem ser forçado, é porque as pessoas estão preparadas para. Mas adiante). As relações sexuais entre jovens são inevitáveis e o risco de contágio não é, muitas das vezes, suficiente para as impedir, ainda que desprotegidas. Por isso mesmo, educar é uma responsabilidade que nem os pais nem as escolas devem fugir.

Neste contexto, e centrando-me na temática do preservativo, o seu uso deve ser incentivado. Não estou de acordo com os argumentos que defendem que a distribuição de preservativos e a sua vulgarização sejam incentivos ao sexo antes do tempo por coerência. Se não forçado, acontece quando se escolhe que aconteça. Porém, e mesmo que seja considerado um incentivo, incentivar relações sexuais saudáveis é uma atitude correcta.

A Educação Sexual talvez não devesse ser obrigatória, dando-se oportunidade aos pais de escolherem, além do tipo de matéria, a sua adequação ao que pretendem que seja a educação dos seus filhos. Seja como for, e mesmo que se continue a adiar a implementação da disciplina por dificuldades de coordenação pai-escola-Ministério, a distribuição de preservativos, mesmo que não de forma gratuita mas a um preço simbólico (para evitar desperdícios) devia ser praticada com regularidade pelas escolas e de uma forma aberta e sem tabus, acompanhada de informação, como o é por associações de combate à SIDA, juventudes partidárias (a JSD Barreiro teve, há pouco tempo, uma grande campanha pelas escolas), AE’s e outros movimentos similares que partilhem da mesma convicção. O de que só com a banalização destes assuntos se conseguirá quebrar a barreira do tabu e da vergonha, ultrapassando os mitos e as faltas de informação que, apesar de tudo, ainda existem.

Publicado no Diário do Barreiro, no espaço Jovem (16 de Março de 2006)

2 Comments:

Blogger Pedro said...

Mas já pensaste em todas as consequências que podem originar destas políticas que defendes aqui?
Para começar, esse argumento de que as "pessoas estão preparadas para" desde que não seja "forçado" parece-me ser algo duvidoso. Então, hipoteticamente, num caso em que raparigas de 13 anos fossem seduzidas por rapazes de 21 anos e se deixassem levar na ânsia por experiências novas e para parecer "adulta" em relação às suas colegas, isso seria perfeitamente aceitável?

Repara que os menores de 16 não se chamam "menores" por acaso: ainda não são considerados legalmente completamente responsáveis pelos seus actos.
O acto das relações sexuais parece-me ser dos actos mais sérios que uma pessoa pode efectuar. A começar pelas consequências que produz, nomeadamente a potencial gravidez. Sim, o preservativo cobre esse risco, mas e se alguma coisa correr mal (o preservativo romper-se, etc)? Aí podemos ter uma mãe de 14 anos que arruinou a sua vida graças à sua precocidade sexual.
Além do qual uma pessoa pode estar aparentemente já fisicamente apta para o sexo mas emocionalmente ainda muito pouco preparada. E uma pessoa pode não se aperceber disso até ser tarde demais. Restrições na idade tapam esse risco.
Em relação à educação sexual nas escolas, parece-me ser inadequado e na prática bastante inútil. Não é só por causa das piadolas de alguns dos estudantes ("professora, não há aulas práticas desta brincadeira?"); o professor(a) terá que explicar como ter sexo seguro ao mesmo tempo que realçar que a abstinência também é uma opção viável. Muitos adolescentes considerarão isto uma contradição e uma prova de que a escola não tem opinião formada para lhes dar sobre a sua conduta. Isso poderá dar-lhes a impressão que podem fazer exactamente o que querem e desconsiderar a informação que lhes foi dada.
Poderia continuar a divagar sobre este tema, mas penso que estes pontos chegam para compreender que esta questão dos "preservativos na escola" não é assim tão boa ideia como se podia incialmente pensar.

6:21 PM  
Blogger Tiago Alves said...

Pedro,

O teu comentário baseia-se muito na atitude de que a escola teria de dar uma opinião formal aos alunos, de que deveria indicar o "caminho a seguir". Não concordo com tal. Compreendo a questão dos menores. E por isso mesmo vou usá-la.

Não será melhor fornecer às meninas de 13 anos (provavelmente imaturas) mais algum acompanhamento e informação sobre os temas em questão, nomeadamente as doenças, a possibilidade engravidar, etc. e quebrar os mitos que tornam a temática tão atractiva? Se a informação dada fizer com que os jovens retardem o inicio da sua vida sexual, muito bem; se fizer com que a antecipem, melhor ainda, desde que o façam com segurança e consciencia. E isso consegue-se fazer sem impor balizas ou caminhos "correctos". Mantenho a ideia de que o sexo acontece quando as pessoas estão preparadas para tal.

Quanto ao preservativo, falas que podemos ter uma mãe aos 14 anos por o preservativo se romper. Claro que podemos. Mas se não usar preservativo certamente a probabilidade aumenta :) A distribuição nas escolas visa também a quebra da barreira "mítica" com o objecto. O preservativo deve-se tornar algo banal, perfeitamente normal de andar no bolso ou na carteira.

O fruto proibido é o mais apetecido, diz-se por ai. Não defendo a tertulia aberta da temática para ele ser menos apetecido. Mas para ser apetecido com segurança.

11:42 AM  

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