Road to Bolonha
O acordo de Bolonha veio para ficar. A lei encontra-se promulgada e o prazo de transição dado pelo Governo Português acaba no final do ano lectivo de 2006/2007. Neste momento, porém, apenas algumas universidades se encontram numa fase avançada de implementação. Dentro destas, ainda é possível diferenciar as várias faculdades, cada uma com a sua velocidade de adaptação. A muitos estudantes o processo ainda passa indiferente. Infelizmente, da indiferença até à rejeição parece distar um passo muito curto. E, como em todas as mudanças, os grupos de bloqueio estão sempre à espreita, prontos para manipular mentes menos informadas.
O que tem passado na comunicação social sobre o acordo assenta fundamentalmente em duas bases. A primeira é a da harmonia. O espírito de Bolonha centra-se nas competências, por oposição às qualificações. Uma tentativa óbvia de diminuir a burocratização nas equivalências e das diferenças programáticas entre os Estados. Que permitirá uma maior mobilidade de alunos e professores, de programas e informação. Como consequência directa, aumentará a competitividade entre universidades, condição necessária para uma maior inovação e busca de excelência. A segunda prende-se com a melhoria das qualificações. Sendo possível, com um grau de aproveitamento total, conseguir o grau de mestre após quatro anos e meio, pretende-se incentivar os estudantes a prosseguirem os seus estudos após a conclusão da licenciatura. Se o tempo de estudo for a base de comparação, a frase “por apenas mais meio semestre seja mestre” tem sentido, se descontarmos o (também ainda desconhecido) valor a pagar pelas propinas do mestrado.
A estas características deveria acrescentar-se uma outra, mais importante: flexibilidade. É este o grande pilar de Bolonha. Alargar as opções do estudante, procurando aproximar-se das diversas preferências existentes. Dois alunos, um aspirante a uma formação geral e rápida entrada no mercado e outro disposto a conseguir uma especialização, têm a licenciatura como única opção imediata. O mestrado actual, além de restritivo à entrada, é planeado para um momento pós-profissional. Com Bolonha, enquanto o primeiro terá menos tempo de estudo, escusando de andar um ano a ganhar créditos, o segundo conseguirá em menos tempo um grau de mestre adequado ao período pré-profissional.
Como estes exemplos existirão outros, cada qual mais estranho e único. E porque aproximar a oferta da procura sempre deu bons resultados, só tenho a esperar o melhor de Bolonha. Resta esperar que as universidades, ainda pouco preparadas para mudanças tão drásticas, não imponham restrições ou, pior, deixem a reforma a meio caminho, cedendo às mais que previsíveis oposições de alguns docentes, ordens ou outras forças de pressão. Além disso, espera-se compreensão e, mais uma vez, flexibilidade no período de transição, visto a medida ter (e bem, importa dizer) efeitos retroactivos. Porque uma má gestão deste período pode ter um efeito devastador nas novas gerações, é de uma importância extraordinária o efeito pequenos ganhos, ou seja, ligeiros mas visíveis benefícios no curto prazo, de modo a não condenar à nascença tão bem-intencionado projecto.
Publicado no Diário do Barreiro, no espaço Jovem (26 de Abril de 2006)

2 Comments:
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